What does Lambe Bicho mean

Waldeloir Rego Capoeira Angola

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Capoeira Angola

1968

MESTRE DE CAPOEIRA E DE MUITAS ARTES


J orge A m a d o

Waldeloir Rego, roo baiano debru ado sbre os livros e sbre a vida, comumente apresentado s pessoas de -fora-eom - arseguinte frase: ste rapa1 / quem mais entende de candombl, na Bahia. Entende, realmente, muits simo; as religies afro-brasileiras, o sincretismo baiano, so para le fonte constante de observao e estudo eo material que durante anos reuniu, pos sui e est elaborando vai nos dar, com certeza, aqueles livros definitivos que h muito esperamos sbre sse proble ma. Nesse mo no h nada de amadorstico nem exerce a fcil e simptica vigarice que to fcilmente acompa nha a pesquisa eo tais assuntos. Nle tudo seriedade e hon radez intelectual, no h pressa em seu trabalho nem af de aparecer. Em seu gabinete, quase uma cela monstic, Waldeloir acumula, separa, cataloga e observa o imenso acervo que vai buscar na intimidade mais profunda da vida popular baiana. Dessa vida popular le no apenas observador, parte inte grante. No Ax Op Afonj, Waldeloir de tm um elevado psto, dignidade que lhe outorgou a finada Me Senhora em alta conta o tinha a famosa iyalorix. Em alta conta o tm Menininha do Cantois, Olga do Alaketu, mes e pais-de-santo; para Waldeloir no exis te porta fechada nesse antigo mistrio, as chaves dos segredos le as possui, tdas. Os estudos sbre candombl leva ram-no aos demais territrios da vida popular baiana, a todos os detalhes de sua cultura, de sua formao, de sua

Capoeira Angola Ensaio Scio - Etnogrfico

Para os infinitamente amigos


ZL iA A m a d o E MANOEL ABA tJJO

A Vinda dos Escravos

por demais sabido que durante a Idade Mdia os portuguses, assim como outros povos, traficaram escravos, sobre tudo negros. H mesmo vagas notcias de uma parada aqui, outra acol, porm a informao mais precisa, principalmente no que diz respeito ao trfico de escravos africanos para o ter ritrio portugus, a fomecid por Azurara. O autor da Cr nica do Descobrimento e Conquista da Guin relata a maneira de como Anto Gonalves, em 1441, capturou e trouxe para 0 Infante D. Henrique os primeiros escravos africanos. Relata tambm o cambalacho de Anto Gonalves com Afonso Goterres, para importar sses negros do Rio de Ouro, cuja essn cia est neste trecho Oo que Fremoso aquecimento srya ns que viemos a esta terra por levar carrego de tam fraca nossa dora, acertamos agora de levar os pri meiros cativos ante a presena do nosso principel 1
1 Gomes Earrnes de Azurara, Chronica do Descobrimento da Conquista da Guin escrita por mandado de el-rei D. Affonso V, sob a direo scientifica, e segundo as instrues do illustrious Infante D. Henrique / Fiel mente trasladado do manuscrito original contemporneo, que se conser va na Biblioteca Real de Pariz, e dada pela primeira vez luz por dili-gftnria..Hn d i. Cnireira, p.nviado Extraordinrio, e. Ministro Plenipotenciario de S. Magestade Fidelissima na corte de Frana / Precedi-

Isso foi a brecha para que o esprito de- conquista do portugus o fizesse levantar ncoras, para as terras de frica, em busca de um nvo comrcio, fcil e rendoso, porm humi lhante e desumano. A coisa tomou um rumo tal, que dentro em pouco, Lisboa e outras cidades j tinham um cheiro de cidade mulata. Em nossos dias o assunto tem preocupado es tudiosos de todos os matizes e nacionalidades, como os lingis "tas ^ lem es Wilh & IflaGiese ^ CaroHaa Michaelis3 p. Nativos, outros como Leite de Vasconcelos4 que, alm de se manifes tar for sbre o tema, bibliografia, em seu livro Etnografia Portugusa, atualizada com as notas de Orlando Ribeiro. Na poca, a presena de negros em Portugal mexeu com a imaginao potica dos trovadores d Cancioneiro Geral, 6 Gil Vicente, 6 Cames7 e mui especialmente Garcia de Resende 'que nasceu por volta de 1470 e morreu em 3 de fevereiro de 1536 e escreveu a sua curiosa Miscanea e trovas do mesmo auctor b- ha variedade de historia, custumes, casos, ir cousas que em tpo actescer, publicada pstumamente em 1554,
da de uma introduo, e Illustrado com algumas notas, pelo Visconde de Santarem / E seguida dum glossrio das palavras e phrases antiqua das e absoletas. Publicada por J. P. Aillaua, Paris, 1841, pg. 71. 2 Wilhelm Giese, Notas sobre a fala dos negros em Lisboa no prinfcpio do sculo XVI, * Revista Lusitana / Arquivo de estudos filolgicos e etnogrficos relativos a Portugal por Jos Leite de Vasconcelos. Li vraria Clssica Editra de A. M. Teixeira & Cia., Lisboa, 1932, vol. XXX, pgs. 251-257. * Carolina Mchalis de Vasconcelos, Notas Vicentinas / Preliminares duma edio critica das obras de Gil Vicente. Notas I a V, incluindo intioduo edio fa-similada do Centro de Estudos Historicos de Madrid, edio da Revista Ocidente, Lisboa, 1949, pgs. 497-498. 4 Jos Leite de Vasconcelos, Etnografia Portugusa / Tentamc de siste matizao. Volume IV, elaborado segundo os_materiais do autor, am pliados com nova informao por M. Viegas Guerreiro / Notcia introdu tria, notas e concluso de Orlando Ribeiro. Imprensa Nacional, Lisboa, 1958, pgs., 38-61, 5 Garcia d Resende, Cancioneiro Geral. Nova edio preparada pelo Dr. A. J. Gonalves Guimares, Imprensa Nacional, Coimbra, 1917: tpmo V, pgs. 195-199. Carolina Micbalis de Vasconcelos, op. Cit., Pgs. 497-498. f Lus de Cames, Os Lusadas / Reimpresso fac-similada da verda deira 1. * edio os Lusadas, de 1572, "precedida duma introduo e. seguida dum aparato critico do Professor da Faculdade de Letras, Dr. Jos Maria Rodrigues. Tip. da Biblioteca Nacional, Lisboa, 1921, canto 1, estncia 8.

apensa Crnica del-Rei D. Joo II, No decorrer de sua Mis celnea, satirizando semper, fomece elementos sbre a faanha dos portuguses, nas bandas de frica, os cativos tirados de l para Portugal, seus costumes e outros fatos. Na estncia 48, mostra a fria das conquistas: Rey & prncipe se vio dij a pouco descobrio ha ndia, & ha tomou, como todo ho mdo ouuio, tomando reynos, & terras per muy guerreadas guerras, anhdo toda ha riqueza o soldam & de Veneza, sobjugando mares, serras. 8

Nas estncias 53 e 54, comenta a antropofagia dos negros da Guin e Manicgo, que com grafavam antigamente o Congo, descoberto em 1485 por Diogo Co: E comeo em Guinee & Manicgo, por teer costuma de se comer hs a outros, como he muy notorio se fazer, cpr homs como gaado escolhidos, bem criados, & matam hos regateiras, & cozidos em caldeiras hos com tambem assados. * Por muito mais saborosa carne das carnes ha tem, por melhor & mais gostosa,
8 Garcia de Resende, Miscelnea / e variedade de histrias, costumes, ca sos, e cousas que em seu tempo aconteceram. Com prefcio e notas de Mende $ dos Remdios, Frana-Amado-Editor, oimbra, 1Q17, pg. 20th

Na estncia 134, narra as vitrias de el-rei, sobretudo com os mouros de frica: Guerra digna de louuor, de perpetua memria, ---------------------- --de-honra ^ -fama, de gloria ------------------------ tem el rey nosso senhor com muito grande victoria com mouros africanos, & gentios Asianos, Turcos, Rumes, & pagas, & myta paaz c christas inimigo de tirannos. 18 Na estncia 141, fala da converso do maior Rei da Eti pia e de Manicongo. Trata-se do rei do Congo, que Mendes dos Remdios, 14 citando Cunha Rivara, se refere ao decreto em que o referido rei, alm do ttulo de rei do Congo, Senhor dos Ambundos, passou a intitular-se da Etipia, rei do ajitiqssimo reino do Congo, Angola, Matamba, Veang, Cunchi, Lulha e Sonso, Senhor dos Ambundos e dos Mutambulos e de muitos outros reinos e senhorios: Ho mayor rey de ethiopia, de manicgo chamado, vijmos christa ser tomado, & com elle grande copia de gente de seu reynado: mandou por religiosos, & por frades virtuosos 3 lhe el rey de caa indaua, & elle mesmo prgaua nossa fee a hos duuidosos. 15 finals, nas estncias 257, 258 e 259, narra a calami dade que atingiu Portugal eo norte da frica em 1521, assim
13 Garcia de Resende, op.cit., Pg. 48. 1-4 Mendes dos Remdios, in Garcia de Resende, op. Cit., Pg. 126. 16 Garcia de Resende, op. Cit., Pg. 51.

como o fato dsses povos se venderem por comida a ponto de Portugal pensar em tomar Fez: Vij que en Africa aqceo ser morte, & fama muy forte: Cauallos, & gado morreo, mmtagente ~ peresceo, nunca foy tal fome & morte: hos paes hos filhos vendi, duzentos reaes valiam, muitos se vinham fazer christas caa, soo por comer, nos campos, praas morri. * Ho reyno de Feez ficou c dous ou tres mil cauallos: de Tremecem se formou, laa, & mais longe mandou muita gente a comprallos, que foi tanta perdiam, que nam ficou geeraam, para poderem geerar: nas eguas mandou buscar para fazer criaam .

Se neste tempo expensivea portugal soo que comer, leumente se podera tomar fez, & se ouuera com pouca fora, & poder: mas caa mesmo ent daha tanta fame, que custaua trigo alqueire a cruzado, came, vinho & pescado tudo com penna se achaua .18
1 * Garcia de Resende, op cit., Pgs. 89-90.

Com o passar do tempo essa atividade, longe de se extinguir, tomou um impulso espantoso. Por incrvel que parea, sse comrcio terrvel e desumano teve a mais forte cobertura da Santa Madre Eclsia, alegando para tanto o argumento idiota de que os portugueses tomariam os povos ditos brba ros, adeptos da f de Cristo. Imagine que o papa Eugnio IV, pelas bulas Dudum cum de 31 de julho de 1436, a Rex Regnum de 8 de setembro de 1436 ea Preclaris tuis de 25 de maio de 1437, renovou a concesso ao rei D. Duarte de tdas as terras que conquistasse na frica, desde que o territrio no pertencesse a prncipe cristo.17 No ficou smente ao esdrxulo privilgio. Remexendo o bulrio portugus, nos ar quivos da Trre do Tombo, Calgeras18 Finderou vrias ou tras, inclusive a mesma bula Rex Regnum, concedida pelo papa Eugnio IV a D. Duarte, porm agora com outro desti natrio, que foi D. Afonso V, com data de 3 de janeiro de 1443. No pontificiado de Nicolau V, D. Afonso V, o Infante D. Henrique e todos os reis de Portugal assim como seus su cessores passariam a donos de tdas as conquistas feitas na frica, com as ilhas nos mares a ela adjacentes, comeando pelos cabos Bojador e No, fazendo pouso na Guin, com tda a sua costa meridional, incorporando a tudo isso as regalias que o crebro humano imaginasse tirar dessas terras e dsses povos. Essa pequena bagatela de oferendas foi concedida pela bula Romanus Pontifex Regni Celestis Claviger de 8 de janei ro de 1454. sses favores eram confirmados por cada papa que ascendia ao pontificado. E nessa matria, o recorde foi batido pelo papa Calixto III com a clebre bula Inter cetera que nobis divina disponente clementia incumbunt peragenda de 13 de maro de 1456, a qual, alm de confirmar tdas as ddivas anteriores, acrescentou a ndia e tudo mais que depois se adquirisse. E o melhor de tudo foi o arremate, de que o descobrimento daquelas partes o no possam fazer seno os reis de Portugal. 19 A mesma orientao seguiu Xisto VI, com as bulas Clara devotionis de 21 de agsto de 1471 e Aetemi
17 Joo Pandi Calgeras, A poltica exterior do Imprio / Tomo Espe cial da Revista do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. Imprensa ______ Nacional, Rio_ de Janeiro, 1927, vol. I. pg. 36. Joao Pandi Calgeras, op. Cit., Vol. I, pg. 36. 19 Joo Pandi Calgeras, op. Cit., Vol. I, pg. 37.

regis clementia per quam reges regnant de 2 1 de junho de 1481. Inocncio VIII valeu-se das bulas Orthodoocae fidei de 18 de fevereiro de 1486 e Dudum cupiens de 17 de agsto de 1491. Em meio a tda essa baratinao da Santa S, deve -se fazer justia a alguns papas, que protestaram contra seme lhante estado de coisas, como Pio II com a bula de 7 de ou tubro de 1462, Paulo III em 1537, Urbano VIII com a bula de 22 de abril de 1639, Benedito XIV em 1741, Pio VII em 1814 e finalmente Gregrio XVI, pela bula de 3 de decembro de 1839, condena e probe a escravido de negros.20 sse casamento estranho da coroa portugusa com a Mi tra, permitiu que os portuguses agissem livremente, em nome de Cristo, Nosso Senhor e da sua santa f, o que para tanto no fizeram cerimnia. No assim que, pouco tempo depois dessas concesses, descobrem a grande colnia da Amrica do Sul. Era a princpio Terra de Santa Cruz, para depois passar a ser colonizada com o nome de Brasil. Argumenta-se que a sobrevivncia das primeiras ENGENHO ~ cas, o plantio da cana-de-acar, do algodo, do caf e do fumo foram os elementos decisivos, para que a metrpole en viasse para o Brasil os primeiros escravos africanos. Diante disso, vem a pergunta quando chegaram sses primeiros escravos? Vieram de Angola? Trouxeram d l a capoeira, ou inventaram-na no Brasil? Infelizmente, o conselheiro Rui Barbosa, por isso ou por aquilo, nos prestou um mau servio, mandando queimar tda documentao referente escravido negra no Brasil, quando Ministro da Fazenda, no govrno discricionrio do generalssimo Deodoro da Fonseca, por uma resoluo que tem o se guinte teor: Considerando que a nao brasileira, pelo mais subli me lance de sua evoluo histrica, eliminou do solo da ptria a escravido a instituio funestssima que por tantos anos paralisou o desenvolvimento da sociedade, inficionou-lhe a atmosfera moral;
Perdigo Malheiio, A S scruvidu no BrasilfEno_____ ___i saio Histrico-Jurdico-Social. Edies Cultura, So Paulo, 1944, tomo II, pgs. 16-17.

considerando que a Repblica est obrigada a destruir sses vestgios por honra da ptria, e em bomenagem aos nossos deveres de fraternidade e solidaridade para com a grande massa de cidados que pela abolio do elemen to servil entraram na comunho brasileira; resolve: 1. Sero requisitados de tdas s tesourarias da Fazenda todos os papis, livros e documentos existentes nas reparties do Ministrio da Fazenda, relativos ao elemento servil, matrcula de escravos, dos ingnuos, filhos livres de mulher escrava e libertos de sexagenrios vero ser sem demora remetidos a esta capital e reunidos em lugar apropriado na recebedoria. 2. Uma comisso composta dos Srs. Joo Fernan des Clapp, presidente da confederao abolicionista, e do administrador da recebedoria desta capital, dirigir a arrecadao dos referidos livros e papis e proceder queima e destruio imediata dles, o que se far ria casa de mquina da alfndega desta capital, pelo modo que mais conveniente parecer comisso. Capital Federal, December 15, 1890. Ruy Barbosa. 21 De modo que, por enquanto, se toma. impossvel precisar quando chegaram ao Brasil os primeiros escravos. O que exis te muita conjectura em tmo do problema. O Visconde de Prto Seguro, por exemplo, fala de que os escravos vieram ao Brasil nos primrdios da colonizao, indo mais longe, dizen do que na armada de Cabral vieram escravos, argumentando que cada senhor dispunha do seu. Contudo, no nos fomece nenhuma documentao a respeito. 22 Fala-se que em 1538 Jorge Lopes Bixorda, arrendatrio de pau-brasil, teria trafi
21 Marfa Barbosa Vianna, O Neero no Museu Histrico Nacional, in Anais do Museu Histrico Nacional, vol. VIII, 1957, pgs. 84-87. 22 Visconde de Prto Seguro, Histria Geral do Brasil / Antes da sua separao e independncia .de PortugaL Em casa de E. & Laemmert, Rio de Janeiro, 2 * lio, s / d., Vol. I, pg. 219

cado para a Bahia os primeiros africanos.23 Tem-se notcia de que, em 1539, Duarte Coelho reclamava a D. Joo III o seu pedido de escravos e como no fsse logo atendido, insistia por carta de 27 de abril de 1542.24 Com a fundao da cidade do Salvador e instituio do govrno-geral em 1549, o padre Manoel da Nbrega, que ~ veio na comitiva do primeiro governador-geral Tom de Sousa, depois de escrever ao Prepsito do Colgio de-Saate- ^ Aato em Lisboa- , queixando-se da mistura de negros e negras na nova povoao, ressaltando que assim se inoculava no Brasil o fatal cancro da escravatura, fonte de imoralidade e de runa, 25 sse rnesmo reverendo foi um dos primeiros a pedir escravos de Guin a D. Joo III, por carta de 14 de setembro de 1551, para fazerem manti mentos, porque a terra h tam fertil, que facilmente se man tero e vestiro muitos meninos, se tiverem alguns escravos que fao roas de mantimentos e algodoais .26 Ainda em car ta de 1 0 de julho de 1552 reclama: Yes tenho escrito sobre os escravos que se tomaro, dos quais hum mOrreo logo, como morrero outros muitos que vinho ja doentes d mar ... En toda maneira este anno trago os Padres proviso de El-Rei assi dos escravos ... Se El-Rei favorecer este e lhe fizer igreja e casas, e mandar dar os escravos que digo (me dizem que mando mais escravos a esta terra, de Guin; se assi for podia logo vir proviso para mais tres ou quatro alem dos que a casa tem). . . 27 Por carta de 2 de setembro de 1557 rejeita os ndios como escravos e insiste na remessa de ngros de Gui n: Escravos da terra no nos parece bem t-los por alguns inconvenientes. Destes escravos de Guin manda ele trazer
23 Afonso de E. Tauny, Subsdio para a histria do trfico africano no Brasil, in Anais do Museu Paulista, Imprensa Oficial do Estado, So Paulo, 1941, tomo X, pg. 32. 24 Joo Pandi Calgeras, op. Cit., Vol. I, pg. 288. 25 Janurio da Cunha Barbosa, Se a introduo dos escravos no Bra sil embaraa a civilizao dos nossos indgenas, dispensando-se-lhes o trabalho, que todo foi confiado a escravos negros. Neste caso qual o prejuzo que sofre a lavoura Brasileira ?, in Revista do Instituto Histrico e Ceogrfico do Brasil. Tipografia Universal de Laemmert, Rio de Ja neiro, 2nd a edio 1856, tomo 1, pg. 164. 26 Manoel da Nbrega, Cartas do Brasil e mais escritos (opera omnia), com introduo e notas histricas e crticas de Serafim Leite. Por ordem da Universidade, Coimbra, 1955, pg. 101.. 27 Manoel da Nbrega, op.cit., Pgs. 121-123.

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muytos terra. Podia-se aver proviso per que dos primeiros que viessem nos desse os que Sua Alteza quisesse, porque huns tres ou quatro, que nos mandou dar certos annos todos so mortos, salvo huma negra que serve esta Casa de lavar roupa, que ainda no o faz muyto bem, excusa-nos muyts trabalhos .28 Finalmente, por carta de 8 de maio de 1558 la menta: A melhor cousa que se podia dar a este Colgio seria duas duzias de escravos de Guin, machos e femeas, para fazerem mantimentos em abastana para casa, outros anda riam em um barco pescando, e estes podiam vir de mistura com os que El-Rei mandasse para o Engenho, porque muitas vezes manda aqui navios carregados deles.29 Afina], o documento mais antigo, legalizando a importa o de escravos para o Brasil, inclusive indicando o local de procedncia o alvar de D. cit., pgs. 267-268. 29 Manoel da Nbrega, op.cit., Pg. 288

deixem mandar resgatar e vir nos ditos navios, e lhe dem para isso licena e lhos despachem qualquer Provizo ou regimento ouvessem de pagar a metade como dito h, e ao dito Feitor e officiaes aa dita Caja da ndia mando que quando lhe for pedida a dita certido se emformem o mais certo que poderem de como a dita pessoa que lhe a tal certido pedir temhungho feito moente e corrente nas ditas partes, e quantos parceiros so a elle, e se todos so contentes de enviarem pellos ditos escravos, e achan do que os tem e que todos esto contentes fao disso asento em hum Livro que para isso haver na dita casa, e lhe mandaro que d fiana dentro de dois annos do dia que lhe for pasada a tal certido traro certido do Governador das partes do Brazil de como levaro os ditos Escravos as ditas terras e ando nos ditos ENGENHOS, ou do capito e feitor da dita Ilha de So Thome de como os no resgataro nem lhe viero ter a dita Ilha e dahy os mandaro as ditas partes.
---- ilf rw rlifny F grravfv: so resgatados n o ditto tem-

po os executaro pelo mais que havio de pagar alem do dito tero, e seno cazo que o trato de Guin e Ilha de

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So Thom se arrendem ou se fizer sobre elle contrato, todavia cumprir este Alvar como nelle se contem, o qual quero que valha e tenha fora e vigor como se foce em meu nome, e pasada pela Chansellaria posto que este por ella no passe sem embargo there ordenao em con trario. Alvaro Fernandes o fez em Lisboa a 29 de Maro de l559T ~ Andre Soares o fezHscrever. 80 Outro problema ainda sem soluo a origem do local de onde viram realmente os primeiros negros escravos. Os primeiros documentos so lacnicos, falam somente em gentio d a Guin, sem mais outro esclarecimento. Sabe-s apenas que a uma vasta rea ​​de terra da Africa, chamavam os portuguses de Guin, no se tendo notcia de sua diviso geogrfica e tnica. Essa confuso duro muito tempo. E para se ter uma idia disso, basta lembrar que ainda em 1758, quando era vice-rei do Brasil o Conde dos Arcos, ste ficou bastante con fuso ao receber uma ordem da metrpole, no sentido de s permitir a sada de navios para as ilhas de Cabo Verde e por tos da Guin, mediante licena especial de. Sua majestade. Ento, diante dsse aperto, outra coisa no fz seno dirigir a Tom Joaquim da Costa Crte Real um ofcio emitido da Bahia com data de 2 de setembro de 1758, indagando o que significava a palavra Guin. Eis o ofcio, na sua essncia: Em carta de 10 de maro deste prezent anno, me aviza V. Ex., Que SM atendendo a alguns justos motivos que lhe foro prezentes, h servido que nesta Cidade Se np dem des pachos aos navios, que os pretendo para irem delia em direi tura aos Portos da Guin e Ilhas de Cabo Verde, sem espcial licena firmada pela real mo do mesmo Senhor. A execuo desta ordem me tem posto, em grande duvida, no pelo que pertence s IUias de C abo Verde, mas porque me no acerto a rezolver quaes so os portos da Guin, que fico sendo exclusivos do commercio dos moradores desta Cidade, que no aprezentarem licena firmada pela Real mo para o poderem freqentar, por80 A, J. de Melo Morais, Bras Histrico 2. srie, 1868. Typografa dos Editores, Rio de Janeiro, 1866, tomo I, pgs. 212-213.

que a palavra Guin, no sentido em que tomo alguns authores, comprehende no s as Ilhas de S. Thom, mas tambem muito dos portos da Costa da Mina: exclue porem todos os portos do Reyno da Guin, e como me ersuado que esta nova determinao se no dirige a emaraar a franqueza, com que SM tem determinado se ------- nontinue -o-eoHMftr & io da ~ Costa, _da Mina, para que eu no haja de contravir a nenhuma das suas reaes ordens, especialmente a de 30 de maro de 1756, que determina que a respectiva negociao a posso cultivar todas as pessoas que quizerem no s mesmos portos da Costa da Mina, em que dantes se fazia, mas em todos os de Afri ca, que fico de dentro como de fra do Cabo da Boa Esperana, parece faz preciso, que com mais alguma distino se me declare quaes so os portos da Guin, para que no hei de conceder as licenas. . . 31

A respeito dessa confuso em tmo do que seja Guin, Lus Viana Filho32 faz uma tentativa de esclarecimento, aceita com elogios por Maurcio Goulart.33 Um ponto de vista quase uniforme entre os historiado res, no que concerne hiptese de terem vindo de Angola os primeiros escravos, assim como ser .de la maior safra de ne gros importados. Angola era o centro mais importante da poca e atrs dela, querendo tirar-lhe a hegemonia, estava Benguela. Angola foi para o Brasil o que o oxignio para os sres vi vos e segundo Taunay, 34 em uma consulta de 23 de janeiro de 1657, os conselheiros da rainha regente, viva de D. Joo IV e tambm membros do Conselho da Fazenda diziam que Angola era o nervo das fbricas do Brasil.
31 Eduardo de Castro e Almeida, Inventrio dos documentos relativos ao Brasil existente no Arquivo de Marinha e Ultramar de Lisboa, orga nizado pra a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro por Eduardo de Castro e Almeida, tomo I, Bahia, 1613-1762. Oficinas Grficas da Bi blioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1913; pgs. 285-286. Lus Viana Filho, O Negro na Bahia. Prefcio de Gilberto Freyre, Livraria Jos Olmpio Editra, Rio de Janeiro, 1946, pgs. 25-26. 88 Mauricio Goulart, Escravido Africana no Brasil (Das origens exUno o trifico), 2nd edio, Livraria Martins Editra, So Pauto, 1950, pgs. 185-186. 34 Afonso E Taunay, op.cit., Pg. 211.

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"O abastecimento em Angola era cousa natural. Alm das causas que enumeramos havia ainda outra: era um mercado nvo, abundante, fcil. Para le convergiu o comrcio biano, que, em troca de aguardente, fazendas, miangas, facas, pl vora, ia buscar negros, afirma Lus Viana Filho, em O Negro na Bahia.35 Tda essa carreira para os portos de Angola era devido boa qualidade dos escravos, principalmente no que tange submisso, o que no possuam os nags, que eram chegados rebeldia e arruaas Talvez por essa facilidade que existia no mercado de Angola, associada boa mercadoria, que os historiadores concluem pelo pioneirismo de Angola na remessa de escravos para o Brasil. Na excellent introduo que d edio da Segunda Visitao do Santo Ofcio s Par tes do Brasil pelo inquisidor e visitaor o licenciado Marcos Teixeira / Livro das Confisses e Retificaes da Bahia: 16181620, de Eduardo D01iveira Frana e Snia A. Siqueira, re futando Lus Viana Filho que, estudando o que chama de Cielo de Angola, admite, do mesm o modo que Jos Honrio Rodrigues, 36 que a superioridade dos negros bantos na Bahia foi no sculo XVI, argumentando que j entre 1575 e 1591 teriam sado nada menos de 50.053 peas para o Brasil e n dias de Castela. A fonte de informao o cronista da poca Abreu e Brito, em "Um inqurito vida administrativa e eco nmica de Angola e do Brasil. 37 Tambm de opinio de que foi de Angola que nos veio a maior parte dos escravos Mau rcio Goulart, porm com a ressalva de que isso s se verifi cou depois do alvar de D. Joo III, de 29 de maro de 1559.38

II

O Termo Capoeira
O vocbulo capoeira foi registrado pela primeira vez em 1712, por Rafael Bluteau, 39 seguido por Moraes em 1813, na segunda e ltima edio que deu em vida de sua obra. 40 Aps isso, entrou no terreno da polmica e da investigao etimolgica. A primeira proposio que se tem notcia a de Jos de Alencar em 1865, na primeira edio de Iracema, repetida em 1870, em O Gacho 41 e sacramentada em 1878, na terceira edio de Iracema. Props Alencar para o vocbulo capoeira o tupi caa-apuam-era, traduzido por ilha de mato j cortado. 42 Nao demorou nada, para que em 1880, dois anos depois, Ma cedo Soares a refutasse com violncia, dizendo que o nosso exmio romancista sabia muito do idioma portugus, pouco do dialeto brasileiro e menos ainda da lngua dos brasis. 43 O
39 Raphael Bluteau, Vocabulrio Portugus e Latino, Coimbr / No Collegio das Arte da Companhia de Jesus / Ano 1712, vol. II, pg. 129. 40 Antonio de Moraes Silva, Diccionario da Lngua Portuguexa / Recopilado dos vocabulrios impressos at agora, e nesta segunda edio no vamente emmendado e muito accrescentado. Lisboa, na Typographia Lacerdina / Anno de 1813, tomo primeiro, pg. 343. 41 Jos de Alencar, O Gacho / Romance Brasileiro. Nova edio, Livra ria Gamier, Rio de Janeiro, s / d, pg. 239. 42 Jos de Alencar, Iracema / Lenda do Cear, B. L. Gamier, Rio de .. --- r, ----- Janeiro, 3rd * edio, 1878, pg. 212. ----------: -----. 43 Antnio Joaquim de Macedo Soares, Estudos Lexicogrficos do dia leto brasileiro, in Revista Brasileira, N. Midosi, editor, Rio de Janeiro, 1880, Primeiro ano, Tomo III, pg. 228

35 Lus Viana Filho, op.cit., Pg. 50. 36 j os Honrio Rodrigues, Brasil e frica: Outro Horizonte, 2.a edi o revista e aumentada. Editra Civilizao Brasileira, Rio de Janeiro, 1964, vol. I, pg. 17. 37 Segunda Visitao do Santo Ofcio s Partes do Brasil pelo inquisitor e visitador o licenciado Marcos Teixeira / Livro das Confisses e Ratificaes da Bahia: 1618-1620. Introduo de Eduardo D01iveira Snia A. Siqueira, in Anais do Museu Paulista, So Paulo, 1963, tomo XVII, pg. 218. 38 Maurcio Goulart, op. Cit., Pg. 185

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conselheiro Henrique de Beaurepaire Rohan, tambm Viscon de de Beaurepaire Rohan, entre outras centenas de ttulos ^ que em 1879 havia proposto o tupi co-puera, significando roa velha, na Revista Brasileira, 4 * viu-se tambm criticado pela pena de Macedo Soares . Exteriorizando, assim, sua indig nao, brada o velho mestre: Vimos ltimamente uma nova etimologia de capoeira, dada pelo Sr. conselheiro Henrique de ~ Beaurepaire Rohan, nesta Revista, II, 426, a qual nos no pa rece aceitvel. Traz S. Ex.a copuera, roa velha; mas no ex plica como de copuera se fz capura. Nem se podia, seno por exceo, fazer. Tdas. as palavras guaranis que comeam por c, mato, flha, planta, erva, pau, ao passarem para o por tugus, guardavam a slaba c, sem corrupo. E no podiam deixar de guardar, por ser parte substancial dos compostos que assim ficaram constitudos como palavras inteiras. E Viceversa, nas palavras portugusas comeadas por c derivadas do guarani, significando coisa de mato, flha, pau, planta ou erva, oceo guarani approx. No h exceo, e os exemplos formigam. * 5 Gom isso ficou aberta a polmica entre Beaure paire Rohan e Macedo Soares. Dsse modo, sem perda de tempo, no mesmo ano, porm no volume terceiro da Revista Brasileira, Beaurepaire Rohan, com um artigo intitulado Sbre a etimologia do vocbulo brasileiro capoeira, da seguin te lio: Na Revista Brasileira d 15 de fevereiro ltimo, sob o ttulo Estudos lexicogrficos d dialeto brasileiro, dis cute o Sr. Dr Macedo Soares a etimologia ea significao dos vocbulos capo, capoeira, restinga. Neste meu ligeiro escrito no me ocupei seno do vo cbulo capoeira, atendendo a que a etimologia que dle apresentei no parece aceitvel ao ilustre fil 44 Henrique de Beaurepaire Rohan, Reforma da Ortografia 'Portugusa, in Revista Brasileira, N. Midosi, editor, Rio de Janeiro, 1879, tomo II, pg. 426. 48 Antnio Joaquim de Macedo Soares, op. Cit., Pg. 228

E mais adiante: Capoeira ou ca-pura significa mato virgem que j no, que foi botado abaixo, e em seu lugar nasceu mato fino e raso. To defeituosa definio que prova que o Sr. Dr. Macedo Soares ainda no compreendeu bem o sentido genuno do adjetivo pura. Pura no pode significar ao mesmo tempo o que foi e o que, o passado e o presente. Pura semper a ex presso do pretrito. E se ca-pura significa mato que deixou d e existir, seria um verdadeiro contra-senso estender semelhante significao a um acidente florestal .que vive em plena atualidade, bem patente aos olhos e ao alcance de todos. Ca-pura no pode portanto ser a etimologia de capoeira. Outra devemos procurar, e ahabenraremos, sem a menor dvida, no vocbulo c-pura. Se no sentido de roa que deixou de existir tem sse vocbulo uma significao diversa daquela que ligamos a capoeira, todavia fcil reconhecer o motivo da confu so. Atenda-me o Sr. Dr. Macedo Soares. Logo que uma roa abandonada, aparece nela uma vegetao expontnea que se desenvolve a ponto de for mar um mato. sse o mato de co-pura, que mais tar de se chamou mato de capura como ainda hoje o dizem muitos ncolas, e finalmente por abreviao, capoeira que a expresso mais usual. Essa transformao de copura em capoeira, que to estranha parece ao distinto literato, devida, pura e simplesmente, semelhana dos dois vocbulos, semelhana que facilitou a mudana do o em a. So muitos os casos em que tais substities se tm operado sem quebra da primitiva significao de um vocbulo. assim que tobatinga se transformou em tabatinga; tabajara em tobajara; caryboca em coriboca ou curiboca; e finalmente na prpria lngua portugusa de voo em devoo. J v ilustre Sr. Macedo Sares que, por ste lado, o pode haver a menor dificuldade em admitir que a antiga copra seja a capoeira de agora. isto mais simples do que a metamorfose de ru em alu.

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Nas relaes vulgares esto de h muito perdidas as tradies etimolgicas de capoeira. Por mato de capoeira ou simplesmente capoeira, entendemos, atualmente todo e qualquer mato de medocre estatura, quer se desenvol va em roas abandonadas, quer substita a mata virgem que se derrubou, quer emfim cubra terrenos onde no haja vestgios quaisquer nem de roas matas pri mitivas. So semper matos mais ou menos enfezados, que alis vo com o tempo adquirindo certas propores, pas sam ao estado de capoeires, e, dentro de algumas dezenas de anos, acabam por constituir florestas que se confundem perfeitamente com as matas antigas. o que, por exem plo, se observa nas extintas misses jesuticas de Guayra. No sei se me exprimi de modo a convencer o Sr. Dr. Macedo Soares. Em todo caso felcto-me por ter tido a oportunidade de discutir com um literato to estimavel qual semper o considerei. E para lhe dar mais uma prova do meu interest pelo trabalho Iexicografico que tem entre mos, acrescentarei que tigura no tem a significao de roa velha. Aquele vocbulo refere-se especialmente ao restolho de um milharal. No Rio de Janeiro lhe chamam palhada, e em certos lugares de Minas Gerais palha. Sol tar os animais na palha, na palhada, no restolho ou na tigura uma e a mesma cousa. quanto me cumpria dizer.46 Ao lado dessa polmica, as investigaes prosseguiram e proposies novas surgiram. Ainda no sculo passado se l na Poranduba Amazonense4T a forma caapora, assim como se v o Visconde de Prto Seguro, 48 depois de discorrer em tmo das acepes dos vocbulos capo e capoeira, aconselhar se escreva capora.
46 Henrique de Beaurepaire Rohan, Sbre a etimologia do vocbulo brasileiro capoeira, in Revista Brasileira, N. Midosi Editor, Rio de Ja neiro, 1880 Primeiro ano Tomo IH, pgs. 390-392. * 7 J. Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense ou Kochiyma- Uara Porandub 1872/1877, Tipografia de Leuzinger & Filhos, Rio de Ja neiro, 1890, npg. ~ 7 9 r --------- ---- ------------- - -----------; ---------- 48 Visconde ae Prto Seguro, Histria Geral do Brasil / Antes da sua se parao e independncia de Portugal. Em casa de E. & Laemmert, Rio de Janeiro, 2nd a edio, s / d., Vol. X, pg. 8th.

Atualmente so quase unnimes os tupinlogos em aceita rem o timo ca, m ato, floresta virgem, mais pura, pretrito nominal que quer dizer o que foi, o que no existe mais, tmo ste proposto em 1880 por Macedo Soares. 49 Portanto, pen sando assim, esto Rodolfo Garcia, 60 Stradelli, 1 Teodoro Sam paio, 52 Tastevin 53 e Friederici que, alm de reconhecer um mesmo timo para o tupi e para a lngua geral, define como places and stretches of former jungle, which are again with young wood New growth are settled. B4 Afora Montoya que em 1640 props cocera, "chacara vieja dexada ya, 85 Beaurepaire Rohan86 props em 1879 a forma co-puera, roa velha, Em nossos dias, pensa assim Frederico Edelweiss que, em nota ao livro de Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional, refutou o timo corrente, para dizer que essa opinio errnea muito espalhada.apueira vem de kopefa roa aban donada, da qual o mato j tomou conta.A trca do o para a
49 Antnio Joaquim de Macedo Soares, op. ' cit., pg. 228. 80 Rodolfo Garcia, Dicionrio-de brasileirismos (peculiaridades per nambucanas), Rio de Janeiro, 1915, pg. 69. Rodolfo Garcia, Nomes geogrficos peculiares ao Brasil, in Revista de Lngua Portugusa / Arquivo de estudos relativos ao idioma e literatura nacionais, dirigida por Laudelina Freire, n.3 Janeiro, 1920, pg. 164.81 E. Stradelli, Vocabulrio da Lngua Geral Portugus-Nhengatu e Nhengatu-Portugus / Precedidos de um esbo de Gramtica Nhengatu-umbn-sua-miri e seguidos de contos em lngua geral nhengtuporanduua. Rio de Janeiro, 1927, pg. 397. 82 Teodoro Sampaio, O tupi na geografia nacional, 4th edio, Cmara Municipal do Salvador / Introduo e notas de Frederico G. Edelweiss, Salvador, 1955, pg. 107. S3 Constantino Tastevin, Vocabulrio Tupy-Portuguez, in Revista do Mu seu Paulista, Oficinas do Dirio Oficial, So Paulo, 1922, tomo XIII, pg. 613. Constantino Tastevin, Gramtica da Lngua Tupy, in Revista do Mu seu Paulista, Oficinas do Dirio Oficial, So Paulo, 1922, tomo XIII, pg. 565. 84 Georg Friederici, Americanist dictionary and auxiliary dictionary for the mericanist, 2nd edition, Cram, de Gruyter & Co., Harnburg, 1960, pg. 131.85 Antonio Ruiz de Montoya, Vocabtario y tsoro de la lengua guarani, 6 mas bien tupi, en dos partes: I. Vocabulario espanol-gurani (frp1} - 11 im nmg irih in <- (/ i N ym ii m as irraitay esmerada que la primera, y con las voces indias en tupi diferente. Faesy y Frick, Viena-Maisonneuve y Cie, Pris, 1876, pg. 98. B Henrique de Beaurepaire Rohan, in op.cit., pg. 426.

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deve-se influncia da palavra corn corrente ka, mato. En tretanto, o ndio nunca chamaria ao mato nvo de antigo roado ka-pera mato extinto, quando a capoeira, na verdade, um mato renascido. 57 Existe no Brasil uma ave chamada capoeira (Odontophorus capueira, Spix), que alm de ser Finderada no Paraguai
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rais, sul de Gois, sudoeste de Mato Grosso, So Paulo, Para n, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. 58 tambm chamada uru, uma espcie de perdiz pequena, anda semper em ban dos, e no cho. 89 mencionada freqentemente nas obras dos viajantes, mui especial na do Prncipe de Wied-Neuwied. 60 Depois de dizer que o canto da capoeira s ouvido ao ama nhecer e ap anoitecer, Macedo Soares, transcrevendo Wappoeus informa que a referida pere uma de vo rasteiro, de ps curtos, de corpo cheio, listrado de amarelo escuro, cauda curta e que habita em tdas as matas. Tem um canto singular, que antes um assobio trmulo e contnuo do que canto modulado. tambm caa muito procurada e que se domestica com facilidade. 61 No mesmo local, Macedo Soa8? Frederico G. Edelweiss, in Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional, ed. Cit., Pg. 107 nota. 8 Olivrio M.de Oliveira Pinto, Catlogo das aves do Brasil e lista dos exemplares que as representam no Museu Paulista, in Revista do Museu Paulista, Sq Paulo, tomo XXII, 1938, pgs. 104-105. Carlos Octaviano da C. Vieira, "Nomes vulgares de aves. Do Brasil, in Revista do Museu PauUsta, So Paulo, 1936, tomo XX, pg. 452. Hermann von Ihering e Rodolfo von Ihering, Aves do Brasil (Ca tlogo da Fauna Brasileira), ed. Museu Paulista, Tipografia do Dirio Oficial, So Paulo, 1907, vol. I, pg. 18. Rodolfo von Ihering, Dicionrio dos Animais do Brasil, So Paulo, 1940, pgs. 823-825. 59 Manuel Aires de. Casal, Corografia Braslica ou Relao HistricaGeogrfica do Reino do Brasil, Edies Cultura, So Paulo, .1943, to mo II, pg. 122. 60 Wied-Neuwied, Viagem ao Brasil. Traduo de Edgar Sssekind de Mendona e Flvio Poppe de Figueiredo, 2. * edio rerundida e anota da por Olivrio Pinto, Companhia Editra Nacional, So Paulo, 1958, pgs. 188, 242, 243, 365. 1 Antnio Joaquim de Macedo Soares, Dicionrio Brasileiro da Ln gua Portugusa / lncidiro etimolgico critico das palavras e frases que, originrias do Brasil, ou aqui populares, se u significao di ferente 1875-1888 / Coligido, revisto e completado por seu filho Ju

res informa que o canto da capoeira era utilizado atravs do assobio pelos caadores no mato como chama, e os moleques pastres ou vigiadores de gado para chamarem us aos outros e tambm ao gado. Dessa forma o m oleque ou o escravo que assim procedia era chamado capoeira. Ainda com ligaes ave Nascentes que em 1955, na Aevista brasileira de Ftftjfogc, ~ apresenta-uma-proposio-dife-rente da que deu luz em 1932, em seu Dicionrio Etimol gico da Lngua Portugusa e em 1943, quando concluiu a re dao da ltima ficha do dicionrio que a Academia Brasilei ra de Letras lhe encomendara. Nascentes ao explicar como o jgo da capoeira se liga ave, informa que o macho da ca poeira muito ciumento e por isso trava lutas tremendas com o rival, que ousa entrr em seus domnios. Partindo dessa pre missa, explica que Naturalmente, os passos de destreza desta luta, as negaas, foram comparadas com os dstes homens que na luta simulada para divertimento lanavam mo apenas da agilidade. 62 Ao lado do vocbulo genuinamente brasileiro de origemus portugal , significando dentre outras coisas csto para guardar capes, j com abonaes clssicas, como a que se segue de Ferno Mendes Pinto, Onde o vocbulo aparece bem caracterizado: E pondo recado & boa vigia no que convinha, nos deixamos estar esperando pela manham; & s duas horas despois da meya noite enxergamos ao Qrizonte do mar ties cusas pretas rentes com a agoa, & chamamos logo o Capito qa este tpo estava no conves deitado encima de ha capoeyra, & lhe mostramos oq [viamos, o qual tanto qo vio tamb, se determinou muyto depressa, & bradou por tres ou quatro vezes, armas, armas, o que logo se satisfez em muyto breve espao. "63 Da Adolfo Coelho64 derivar o voclio Rangel de Macedo Soares, Rio de Janeiro, 1954, vol. I, pgs. 106107. 82 Antenor Nascentes, Trs brasilirismos, in Revista Brasileira de Filologia, Livraria Acadmica, Rio de Janeiro, 1955, vol. I, pg. 20. 68 Femam Mendes Pinto, Peregrinao. Nova edio, conforme a de 1614 preparada e organizada por AJ da Costa PimpSo e Csar Pegado. Portucalense Editra, Prto, 1944, vol II, pg. 33. 84 Francisco Adolfo Coelho, Dicionrio Manual Etimolgico da Ln gua Portugusa / contendo a significao e prosdia, P. Plantir-Editra , Lisboa, s / d., Pg. 204.

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bulo de capo mais o sufixo eira, seguido por Corteso. 85 Nas centes, no Dicionrio Etimolgico da Lngua Portugusa88 se gue as pegadas de Adolfo Coelho, limitando-se a fazer a deri vao do vocbulo sem mais nenhuma explicao. Entretanto, j no Dicionrio da Lngua Portugusa, elaborado para a Academia Brasileira de Letras, 87 inclui sob a mesma origem, capoeira (jgo) e capoeira o homem que pratica o jgo da capoeira, sem contudo ainda explicar o queinou o timo. Tendo como base capo, do qual Adolfo Coelho tirou o timo de capoeira para o portugus, Beaurepaire Rohan faz o mesmo para o vocbulo capoeira na acepo brasileira, apre sentando em defesa de sua opinio a seguinte explicao: Como o exerccio da capoeira, entre dois indivduos que se batem por mero divertimento, se parece um tanto com a briga de galos, no duvido que ste vocbulo tenha sua origem em capo, do mesmo modo que damos emf portugus o nome de capoeira a qualquer espcie de csto em que se metem gali nhas. 88 Brasil Gerson, o historiador das ruas do Rio de Ja neiro, 89 fazendo a histria da rua da Praia de D. Manoel, mais tarde simplesmente rua de D. Manoel, informa que l ficava o nosso grande mercado de aves e que nle nasceu o jgo da capoeira, em virtude das brincadeiras dos escravos que povoa vam tda a rua, transportando nas cabeas as suas capoeiras cheias de galinhas. Partindo dessa informao que o pioneiro
65 AA Corteso, S-ubsdios para um Dicionrio Completo (Histrico Etimolgico) da Lneua Portugu & a / compreendendo a etimologia, as principais noes de leis fonticas, muitos elementos de dialetologia e de onomatologia, tanto toponmica como antroponmica, etc., neismosmos, arcasosmos Frana Amado-Editor, Coimbra, 1901, vol. II, pg. 25 (Aditamento). 68 Antenor Nascentes, Dicionrio Etimolgico da Lngua Portugusa com prefcio de W. Meyer-Lbke, Rio de janeiro, 1932, pg. 151. 67 Academia Brasileira de Letras, Dicionrio da Lngua Portugusa ela borado por Antenor Nascentes, Departamento de Imprensa Nacional, 1964, tomo I, pg. 386. ^ * 5 Beaurepaire Rohan, Dicionrio de vocbulos brasileiros, Imprensa Nacional, Rio de Janeir, 1889, pgs. 35-36. 69 Brasil Gerson, Histria das ruas do Rio de Janeiro, 3rd a edio revis ta e aumentada, Editra Souza, Rio de Janeiro, pg. 31.

de nossos estudos etimolgicos, o ilustre mestre Antenor Nas centes se escudou para propor nvo timo para o vocbulo capoeira, designando o jgo atlti, assim como o praticante do mesmo. Por carta de 22 de fevereiro de 1966, que tive a honra de receber, Nascentes deixa bem claro o seu pensamen to: A etimologia que eu hoje aceito para capoeira a que vem no livro de Brasil Gerson sbre as ruas do Rio de Janeiro. Os escravos que traziam capoeiras de galinhas para vender no mercado, enquanto le no se abria, divertiam-se jogando capoeira. Por uma metonmia res per persona, o nome da coisa passou para a pessoa com ela relacionada. 70 Como se v, as proposies divergem umas das outras, fazendo com que no se tenh uma doutrina finnad sbre ste ou aqule timo. Creio que s se pode pensar m nova proposio com o desenvolvimento dos estudos sbre o negro no Brasil, o que, prticamente, est por s fazer. Caso contrrio, estaremos sem pre construindo algo sem ter alicerces para plantar, que no caso seria o conhecimento de novos documentos, relativos ao negro. O vocbulo capoeira, m suas diversas acepes est espa lhado em todo o territrio nacional como no Amazonas, 71, Par, 72 Maranho, 73 Cear, 74 Paraba, 75 Pernambuco, 76 Rio